A
receita dos milionários
A
subida da maré econômica tira milhões de brasileiros da pobreza e, no nível
superior da pirâmide social, está produzindo um novo milionário a cada dez
minutos
Passado o
breve soluço da crise internacional, o Brasil voltou a avançar com força
renovada. O país iniciou 2010 em ritmo chinês. Diversos setores da economia
crescem numa velocidade superior a 10% ao ano. A produção das indústrias, por
exemplo, teve uma alta de 20% no primeiro trimestre. Nesse mesmo período, o
comércio registrou uma expansão de 13% no volume de vendas. Mesmo consumindo
mais, os brasileiros encontraram folga para poupar. Sinal disso é que o valor
total de recursos captados pelos planos de previdência privada ganhou 28% nos
três primeiros meses do ano. O desemprego recua aos menores níveis históricos,
e a renda dos trabalhadores passa por uma recuperação paulatina mas constante. Se fosse possível medir a temperatura
atual da economia, esse termômetro exibiria em seu visor o número de 12%. Foi
nesse ritmo que o PIB (produto interno bruto, o total de mercadorias e
serviços produzidos) avançou nos três primeiros meses do ano, de acordo com
estimativas dos economistas do Itaú Unibanco. No ano como um todo, o
crescimento do PIB deverá ficar ao redor de 7%, o que seria a maior taxa
desde 1986, quando houve o Plano Cruzado. Esses números extraordinários
representam uma primeira maneira de retratar o momento promissor, algo não visto em mais de uma geração. Outro indicativo da
saúde do Brasil pode ser visto no interesse inédito despertado pelo país lá
fora (veja a reportagem). Um modo mais palpável de sentir esse mesmo fenômeno
é observar diretamente como os empreendedores brasileiros têm tirado proveito
dessa fase de prosperidade.
Na crise,
surgem as melhores oportunidades de negócios, afirma o dito. A prática, no
entanto, mostra que é na maré alta que as empresas singram novos mares e
conquistam territórios. Para a fábrica de sorvetes Frutos do Cerrado, de
Goiás, o boom econômico representou multiplicar por 20, na última década, a
sua produção, hoje avaliada em 70.000 picolés por dia. Já a empresa de
cosméticos mineira Kapeh conseguiu dobrar o número
de lojas que vendem seus produtos no último ano. A Tramontini
Implementos Agrícolas, do Rio Grande do Sul, multiplicou por 6 o seu
faturamento desde 2006. A rede Óticas
Diniz, nascida há dezoito anos em São Luís, no Maranhão, alcançou 450 lojas em
todos os estados e se tornou a maior rede de vendas de óculos do país. Os
exemplos acima, assim como as demais histórias de sucesso recente que
ilustram esta reportagem, dão uma mostra real de como a riqueza se espalha
pelo país, em diferentes setores e regiões. De cada um desses casos é
possível extrair uma lição de empreendedorismo e de como tirar proveito da
retomada econômica para impulsionar os lucros.
Graças à
estabilidade e ao retorno do crescimento, colocar um projeto de pé, batalhar
para fazê-lo deslanchar e transformá-lo em um negócio rentável voltou a ser
um sonho realizável. E como. Estima-se que, no último ano, aproximadamente
50.000 brasileiros tenham ingressado no clube dos milionários. Milionárias,
de acordo com o critério utilizado por instituições financeiras para
identificar possíveis clientes de alta renda, são aquelas pessoas que possuem
um patrimônio equivalente a 1 milhão de dólares, ou 1,8
milhão de reais, com recursos livres para investir (não se incluiu,
portanto, o valor da residência própria). A cada dez minutos, em média, brota
um novo milionário no país. "Hoje, o Brasil é o destaque do mundo. Tenho
muitos clientes comprando seus concorrentes ou vendendo suas empresas para os
estrangeiros. Isso só fortalece e consolida a estrutura empresarial do
país", afirma Celso Scaramuzza, diretor da
divisão de wealth management (ou gestão de
fortunas) do Itaú Unibanco.
Os
cínicos poderão condenar o aumento do número de milionários no Brasil. Verão
nele um jogo de soma zero, sob o prisma equivocado de que "o que é ganho
por alguém é perdido por outrem". Esse não passa de um dos enganos
típicos do senso comum descritos pelo economista americano Thomas Sowell em seu livro Economic Facts and Fallacies.
Uma transação comercial quase sempre é benéfica para ambas as
partes, argumenta Sowell. Tanto quem vende
um produto (para ganhar dinheiro) como quem o compra (por necessidade) sai
ganhando com o negócio. Afirma o autor: "Diversas versões dessa visão de
soma zero, da Teoria de Imperialismo de Lenin à
Teoria da Dependência na América Latina, alcançaram uma grande aceitação no
século XX e revelaram-se bastante resistentes diante de evidências em
contrário". Foi com base nessa ideia
equivocada que o Brasil embarcou, nos anos 70, na reserva de mercado e se
fechou ao comércio internacional. O resultado foi um crescimento
insustentável, que legou uma economia ineficiente e incapaz de enfrentar a
concorrência externa. Sob o dirigismo do capitalismo de estado, o país
emergiu mais injusto e desigual.
No
passado, a riqueza de uns só podia ser construída a expensas de outros. Não
é, em absoluto, o que se vê hoje no país. Diz o economista Marcelo Neri,
coordenador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas:
"O brasileiro está com mais dinheiro no bolso por causa de seu próprio
esforço, beneficiado pela melhora no mercado de trabalho e no aumento do
salário real. Esse avanço não se deve simplesmente a fatores como programas
sociais, que não trazem um bem-estar efetivo e duradouro".
Segundo
um estudo recente do economista, enquanto o consumo aumentou 14,9% nos
últimos cinco anos, a renda dos brasileiros aumentou praticamente o dobro:
28,6%. Isso dá a medida da sustentabilidade da atual fase de crescimento. Nos
anos 90, o consumo explodiu, mas a média da renda das pessoas praticamente
não mudou. O que aconteceu nesse período? Apenas o topo da pirâmide social
estava gastando (e se endividando) mais. Agora todo o conjunto da população
está com mais dinheiro no bolso (veja o quadro). Desde 2000, 23 milhões de
pessoas ascenderam à classe C, deixando os estratos mais pobres (classes D e E). Projeções de Neri indicam que esse movimento
continuará nos próximos anos. A fatia da classe AB será a que mais engordará
até 2014. Já a classe E, em que estavam três em cada dez brasileiros em 2003,
recuará para 8% da população. Essa transformação se deve à criação de
empregos e à formalização de trabalhadores que antes viviam de bicos. Apenas em
2010 deverão ser criados 2 milhões de empregos com carteira assinada. Serão 2
milhões de consumidores em potencial a mais. "Se o empresário está
contratando num país como o Brasil, com cargas tributárias altíssimas, é
porque ele está otimista com o futuro da economia", afirma Rodrigo
Teles, diretor do Instituto Endeavour, que apóia o
empreendedorismo no país.
LIÇÃO 1
CRIE UM PRODUTO EXCLUSIVO
A fundadora da MMartan, Marilena
Rossini, notou que havia espaço no país para oferecer produtos mais refinados
de cama, mesa e banho. Em 1985, abriu um escritório
com as filhas Mariângela e Marilise, sócias da
empresa. Elas recebiam pedidos por telefone e despachavam os artigos por
correio. A expansão do negócio veio com a abertura de franquias, a partir de
2003. Atualmente, são abertas três novas lojas a cada mês, e a previsão de
faturamento para 2010 é da ordem de 235 milhões de reais. No ano passado, a MMartan vendeu 65% de suas ações
à Springs Global, líder mundial no ramo
LIÇÃO 2
INSPIRE-SE NOS LÍDERES
Veja
a reportagem completa, clique aqui
Autor(es): Renata Betti e
Larissa Tsuboi
Veja - 15/05/2010