Em artigo
anterior (Valor 28/05/10), argumentamos com dados que a maior parte do atraso
brasileiro em relação aos países mais ricos deve-se à ineficiência geral da
economia e à baixa escolaridade da população. Juntos, os dois fatores
explicam cerca de 85% da diferença entre a renda per
capita do Brasil e a dos EUA; os 15% restantes se devem à insuficiência de
capital. Entretanto, mesmo não sendo a insuficiência de capital o principal
entrave ao avanço do país, as políticas de promoção do crescimento em vigor
teimam em repetir a mesma estratégia adotada nas décadas de 1950 a 1970, priorizando
volumosos - e custosos - financiamentos à acumulação de capital.
Em artigo
recente, Mansueto Almeida, economista do IPEA,
estimou em cerca de R$ 10 bilhões o volume anual de subsídio concedido pelo
BNDES a empresas. Só para efeito de comparação, o programa Bolsa Família, que
atende 12 milhões de famílias pobres, custa R$ 13
bilhões anuais. O subsídio é caracterizado pelo fato de que o financiamento
da dívida do governo federal - único acionista do BNDES - gira em torno da
taxa Selic (10,25% ao ano ontem), enquanto o banco
empresta às firmas a TJLP (6% ao ano).
Em
contraste com os critérios transparentes adotados pelo governo federal na
concessão da Bolsa Família, o BNDES, ao definir quais setores e empresas terão acesso a seus créditos subsidiados segue critérios
obscuros. Dado que os principais beneficiados dos empréstimos são grandes
conglomerados, trata-se de uma brutal transferência de recursos de todos os
brasileiros para os acionistas destas empresas. Os financiamentos a TJLP
constituem hoje um Bolsa Família às avessas, e as recentes capitalizações do
banco - R$ 180 bilhões - indicam que a benesse para poucos tende a se
expandir.
Subsídios
creditícios a grandes conglomerados, além de contribuírem para agravar a má
distribuição de renda, desestimulam o desenvolvimento do mercado de capitais
e geram pouco incentivo a investimentos em
aprimoramento tecnológico, pois a defasagem tecnológica que reduz a
rentabilidade é compensada pelo subsídio. Não há evidência de que empresas
"campeãs", escolhidas por sábios tecnocratas ou grandes
oligopólios, sejam mais eficientes do que empresas menores.
Ao
contrário, a evidência mostra o oposto. Causa surpresa, portanto, que
economistas supostamente progressistas insistam em defender políticas
ineficazes para promoção do crescimento e que transferem renda aos mais
ricos.
Uma boa
política econômica precisa ponderar custos e benefícios ao estabelecer suas
prioridades. Se, por exemplo, o objetivo é a geração de empregos, deve-se
verificar se o número de postos de trabalho a serem criados pelo subsídio
supera o de postos destruídos pela tributação que custeia os subsídios. A
tolerância - ou até mesmo simpatia - da sociedade em relação ao crédito
público subsidiado decorre do fato de que os empregos criados são facilmente
observáveis, pois concentram-se no setor escolhido
pela tecnocracia, ao passo que os empregos destruídos são de difícil
identificação, pois estão dispersos nos setores onerados pelo imposto que
financia o subsídio.
A pesada
estrutura tributária brasileira, com seu cipoal de impostos e contribuições
sobre as mais diversas bases de incidência, inviabiliza hoje incontáveis
empreendimentos. Ela é responsável, em larga medida, pelo tamanho exagerado
da economia informal no país. Firmas informais tendem a ser
menos produtivas, pois não têm acesso a crédito, o que as impede de investir
em avanços tecnológicos, além de sofrerem com a alta rotatividade da mão de
obra. No caso das empresas grandes, a tributação excessiva incentiva a
concentração em poucas companhias, cujo poder de mercado permite a
convivência com a exação fiscal. A menor competição desestimula os ganhos de
produtividade.
O caminho
para o crescimento está no foco em políticas que visem aumentar a eficiência
geral da economia e que atinjam os agentes econômicos de forma mais equânime.
São medidas institucionais de micro (e algumas macro) reformas voltadas para
a redução de distorções. Exemplos urgentes são a
redução da tributação sobre a folha salarial e sobre investimento, bem como
eliminação de impostos em
cascata. Uma estrutura tributária mais enxuta e menos
distorcida incentivaria o investimento e a formalização. O resultado seria
maior crescimento, com a vantagem que todas as empresas, de todos os setores,
se beneficiariam, e não um grupo específico escolhido segundo critérios
questionáveis.
É curioso
que a mesma tributação elevada que contribui para que muitas empresas se
mantenham na informalidade seja usada para subsidiar as grandes. Tira-se de
quem não tem para se dar a quem tem. Será que isso é que se entende por ideias desenvolvimentistas?
Autor(es): Pedro C. Ferreira e Renato Fragelli
Valor
Econômico - 22/07/2010