Há duas
semanas, publiquei em VEJA um relato da minha viagem à China, feita com o
objetivo principal de conhecer o sistema educacional da província de Xangai,
que conquistou o primeiro lugar no mundo no último Pisa, o teste de qualidade
educacional mais relevante da atualidade. Imediatamente surgiu a pergunta:
podemos copiar o modelo chinês? A resposta é não. A educação de um país
é reflexo de sua cultura, sua história e suas aspirações. Não é
"exportável", ainda mais para um país com diferenças culturais tão
grandes como o Brasil. Mas, se não é possível copiar o modelo todo, há, sim,
muitas políticas públicas que poderiam ser implementadas aqui, depois de um
período de teste em algumas cidades ou estados.
Um fator
geral a nortear a educação chinesa é o pragmatismo. que
se revela sobretudo no pensamento sobre o papel do professor. A China se deu
conta de que precisava de bons professores, e em grande quantidade, para dar
o seu salto. Mas então viu suas carências: não tinha muitos bons professores
nem os mestres capazes de formá-los. Como resolver? Em primeiro lugar,
aumentando o número de alunos em sala de aula, para mais de quarenta nas
áreas desenvolvidas e para mais de cinquenta no oeste rural. Em décadas
passadas, esses números eram ainda maiores. Hoje, a pesquisa acadêmica em
educação mostra que a quantidade de alunos em sala de aula não está
relacionada com a qualidade do ensino, mas, quando a China montou suas
escolas, essa literatura ainda não existia. Os chineses entenderam que é
melhor ter quarenta alunos em contato com um bom professor do que vinte em
duas salas. uma com um professor bom e a outra com
um ruim.
Em segundo
lugar, diminuindo radicalmente o número de funcionários administrativos, que
não dão aula. Na província de Xangai, há 0,28 funcionário
para cada professor. No Brasil, existe 1,5. Ou seja,
cinco vezes mais. Se o fundamental é o professor, "aquilo
que é menos importante precisa ser sacrificado.
Em
terceiro, estruturando a carreira e a remuneração do professor. A maioria dos
sistemas educacionais do planeta paga a mesma coisa a todos os professores
com o mesmo nível de experiência e formação. Coube a um país nominalmente
comunista tratar os diferentes de forma diferente, porque pagando a todos a
mesma coisa se pagaria uma miséria. A China dá uma remuneração básica aos
professores que é pouco atrativa. Para aumentá-Ia,
há duas maneiras. A primeira é obtendo sucesso na sua prática de ensino,
julgada pelo desempenho dos alunos e por avaliações de colegas e diretores da
escola, recebendo, assim., bonificações salariais. A
segunda é, voluntariamente, candidatando-se a passar ao nível superior da
carreira. Mas, além de precisar demonstrar sua qualidade, para ter
remuneração mais alta, o professor deve se comprometer com um aumento
substancial no número de horas de treinamento. Os aumentos salariais não são
uma gratificação: são uma contrapartida.
A
remuneração dos professores é apenas mais um exemplo de outra macropolítica fundamental, a meritocracia. Todos na
educação chinesa são cobrados e valorizados por seus resultados. Os alunos
precisam ir bem no jun kao para ingressar em uma boa high school,
depois precisam ir bem no gao kao
para entrar em uma boa universidade. Precisam de boas notas e bom
comportamento para ocupar as posições de liderança em sua turma. Os
professores precisam esforçar-se, dar boas aulas e obter bom rendimento dos
alunos para receber bonificações e aumentos. Os melhores professores viram
diretores. Os bons diretores das escolas medianas são transferidos para
escolas melhores, em seguida para as escolas-chave. Depois para a
administração municipal, então para a da província, até chegarem ao
ministério. Cada pessoa é valorizada de acordo com o que agrega ao sistema.
EXAME
MÉDICO
Os
estudantes chineses são examinados todos os anos. No Brasil, poucas escolas
se preocupam com a saúde
Outra
característica chinesa importante é a abertura ao exterior. Como a maioria
dos países desenvolvidos que deram saltos, a China não se constrange em
copiar aquilo que deu certo alhures. Os governos fazem um esforço constante
para expor seus funcionários e intelectuais a tudo o que acontece no mundo,
para que eles possam selecionar o melhor e trazê-lo à China.
O
gradualismo é outra marca do sistema chinês.
O país se
vale do fato de ter 32 províncias. 2 858 condados e mais de 40000 cidades
para fazer experimentações. O que dá certo é compartilhado com outras
províncias, até se tomar política nacional. Mas só depois de ser testado e aprovado
em pequena escala. É um sistema que impede a existência de falhas como o
Enem, por exemplo.
Outra
marca registrada é o coletivismo.
O sistema
está organizado em círculos concêntricos, que se "abraçam" e se
polinizam constantemente. Os professores têm seus grupos de estudo, as
escolas têm seus distritos, os distritos são ajudados pelas províncias, que
interagem com o governo nacional. Todos competem, mas todos se ajudam. E o
fazem porque o cuidado com o aluno é constante, e extrapola a sala de aula.
Professores costumam ligar para os pais quando o desempenho de um aluno
começa a declinar. E todo ano todas as escolas chinesas recebem a visita de
um médico e uma enfermeira que farão exame básico de saúde (incluindo de
audição e visão) em seus alunos. Quando se realizou o mesmo exame na cidade
de São Paulo, constatou-se que mais da metade dos alunos (!) tinha problemas
de visão, audição, fala, sobrepeso e desnutrição que
atrapalhavam seu desempenho educacional. Imagine quantos mi1bôes de crianças
no país todo não têm seu desempenho acadêmico dificultado por conviver com
problemas simples de resolver, como de visão e audição.
ABERTURA
PARA O MUNDO
Os
chineses aprendem que conhecimento não tem pátria nem bandeira.
Importante
também é a formação constante que a educação chinesa dá a todos os seus
profissionais. Além do sistema de grupos de estudo de professores, em Xangai
há também treinamento compulsório, todo ano, ministrado pelo governo local:
uma semana em tempo integral nas férias de verão e dois dias nas férias de
inverno. Em relação a diretores é a mesma coisa: ainda que o sujeito seja um
grande professor, para ser efetivado precisa fazer
um curso de administração escolar. Até os burocratas são constantemente
estimulados a passar temporadas em universidades chinesas e do exterior. O
sistema confia no talento e esforço de seus profissionais, mas não permite
que o sistema dependa apenas da vontade individual. O trabalho é
institucionalizado.
Outra
característica importante abrange o planejamento de longo prazo e a
capacidade de cumprir as metas estabelecidas. O governo chinês vem criando
desde a década de 80, planos de horizonte de tempo longo (dez anos ou mais)
para o seu sistema educacional. Os mais antigos versavam sobre
universalização do acesso à escola e erradicação do analfabetismo. Os mais
recentes falam da criação de 100 universidades de nível internacional. A
grande maioria é cumprida e sua elaboração é feita de forma cuidadosa
justamente para que seja cumprida. Foi curioso conversar com um dos diretores
do ministério porque ele se referia aos números dos planos - cada um é
identificado por três ou quatro algarismos como os projetos de lei
brasileiros - da mesma forma que um pastor evangélico cita capítulos e
versículos da Bíblia: como se aquilo fosse um
axioma, e conhecido por todos.
Um
elemento também importante é o material didático. Inicialmente, ele era o
mesmo para todo o país, mas atualmente cada província escolhe ou desenvolve o
seu. Em Xangai, onde toda sala de aula tem um data show, as autoridades
locais usam a internet para abastecer os professores de materiais para os
arquivos de PowerPoint e dicas de como ensiná-los, aula a aula. O professor
decide como quer montar o material e pode compartilhar sua apresentação com
outros colegas pela rede. Claro, isso só é possível porque as províncias
chinesas têm um currículo padronizado, que especifica o que deve ser ensinado
a cada aula, com objetivos claros de habilidades e conhecimentos que o aluno
deve dominar a cada semestre. Na maior parte do mundo é assim; o Brasil é um
dos poucos lugares em que prevalece a ideia de que é democrático que cada
professor e escola decidam o que ensinar e como, atendo-se apenas a
parâmetros curriculares genéricos.
Termino
com uma inovação que, por sua origem e execução, me parece uma síntese
acabada das virtudes do sistema educacional de Xangai. Quando todos os
esforços acima fracassam e uma escola continua não indo bem, ela passa por um
processo em que o governo faz uma licitação pública, pedindo às escolas de
alto desempenho que elaborem um plano para melhorar o desempenho da escola
ruim. O melhor plano é selecionado. A escola top então assina um contrato com
a escola ruim, no qual basicamente assume a responsabilidade por sua
administração por um período de dois anos. Durante esse tempo, um alto
funcionário da escola boa - normalmente o vice-diretor - se desloca para a
escola ruim. na companhia de sete ou oito de seus
melhores professores, e eles ficam lá pelo menos dois dias por semana, em
tempo integral. O governo distrital dá recursos adicionais à escola boa para
que ela possa contratar profissionais que supram a carência causada por
aqueles que saíram. Se a escola ruim melhorar depois desses dois anos. a escola boa recebe um prêmio em dinheiro, que pode ser
gasto em melhorias na escola.
O autor
mor da ideia foi Zhang Minxuan, um dos grandes
pensadores da educação chinesa. Ele me contou sobre o surgimento da ideia,
que veio dos Estados Unidos. Na década de 80, os governos de lá começaram a
criar programas para que empresas administrassem escolas ruins. Mas o
programa não funcionou, porque as empresas só queriam saber do lucro, iam
embora depois que recebiam o dinheiro. O doutor Zhang pôs a ideia em prática
em sua escola, com a alteração crucial de que escolas, e não empresas, cuidassem de outras escolas. O piloto deu tão certo que
foi adotado como política pública. Atualmente há cinquenta escolas em Xangai
operando sob esse contrato. Aí estão o pragmatismo, a meritocracia, o
coletivismo, o gradualismo e a abertura ao exterior em ação. Aí está o melhor
sistema educacional do mundo.
Autor(es): Gustavo loschpe
Veja - 02/01/2012