Armadilha do crédito fácil eleva riscos de endividamento
Iris tem pouco mais de 30 anos, trabalha
em casa de família e tem duas filhas adolescentes que sustenta sozinha. Ela tem
uma renda mensal de pouco mais de R$ 600, mas com alguns trabalhos extras e a
ajuda de amigos já conseguiu comprar a casa própria na periferia paulistana e
se esforça para juntar dinheiro e ir ver a família no Nordeste nas próximas
férias.
Mas, na semana passada, ela
interrompeu seus afazeres na casa onde trabalha para atender a um telefonema.
Era do banco em que tem conta. Do outro lado da linha, um funcionário
perguntava a Íris se ela precisava de alguma coisa.
"Você tem filhos?", quis saber o bancário. "Quer comprar algo,
está faltando alguma coisa na sua casa?".
A doce Íris parou para
pensar e ingenuamente começou a falar sobre seus sonhos. A solução, segundo o
funcionário do banco, era tomar um financiamento que, claro, este banco tão
gentil estava disposto a conceder para sua cliente. Não era a primeira vez que
ele telefonava. Mas, no passado, conta Íris, "era para vender aqueles
bilhetes de sorteios". Em outras palavras, os títulos de capitalização.
A pergunta é: será
realmente que o banco precisa cortar todas as chances de a moça ter um futuro
melhor para conseguir rentabilizar seu negócio? O
banqueiro não pode ganhar dinheiro fazendo operações que ao mesmo tempo gerem
retorno para ela e para ele? Por que logo a Íris é que tem de pagar essa
fatura?
Também na semana passada, a
terapeuta Joselma, funcionária da Prefeitura do Rio
de Janeiro, escreveu à coluna para um desabafo: "Passei mais de três horas
para ser atendida e, no final, peguei um empréstimo mais caro e o gerente ainda
disse que eu precisava comprar um seguro e colocar pelo menos um serviço, de
luz ou telefone, em débito automático na conta corrente. Está correto?",
pergunta. Não, definitivamente não está correto.
A partir deste ano, o
brasileiro vai de fato começar a ver oferta de crédito. É certo que houve uma
explosão de financiamentos quando o volume de operações de crédito para a
pessoa física saltou de R$ 141 bilhões, no final de 2004, para R$ 237 bilhões
em dezembro de 2006 (dado mais recente disponível no site do Banco Central). No
entanto, analistas acreditam que o que está por vir deixará essa cifra
parecendo trocados.
Tudo porque o banqueiro
brasileiro terá, depois de muitos anos, de começar a emprestar dinheiro ao
setor privado para poder rentabilizar seu negócio.
Embora esta seja uma atividade tradicional de qualquer banco, no Brasil das
últimas décadas era necessário emprestar apenas para o governo. Era o risco
mais baixo pagando a taxa mais alta, por isso, não havia motivos para buscar
uma nova clientela.
Com as taxas de juro básica
da economia em queda, o cenário muda. O governo está pagando bem menos do que
pagou no passado e a tendência é de cada vez mais reduzir essa taxa. Assim, os
bancos agora colocaram o produto crédito na meta de seus gerentes, assim como
já faziam com os títulos de capitalização, seguros e planos de previdência.
E é o que
os bancos estão começando a fazer, com a mesma agressividade com que
vendem títulos de capitalização, seguros e planos de previdência
contra-indicados. Quando vendem a rodo esses títulos de capitalização e
seguros, eles estão, na prática, minando a capacidade do cliente de construir
um patrimônio. Mas, quando fazem o mesmo com o crédito, as conseqüências são
ainda mais danosas.
A psicóloga Tatiana Silomensky, do Hospital das Clínicas de São Paulo, faz um
trabalho de atendimento a consumidores compulsivos. Ela relata casos realmente
dramáticos. Uma de suas pacientes chegou a ter dívidas com 15 financeiras
diferentes e ainda três agiotas. Não é um caso isolado. Ao contrário, situações
como essa, diz Tatiana, são recorrentes e corroem o bem-estar de muitas
famílias. O mais preocupante, contudo, é que o trabalho de Tatiana deve
aumentar bastante daqui para frente.
Mara Luquet
é editora da revista ValorInveste
e autora do Guia Valor Econômico para o Planejamento da Aposentadoria
Valor Econômico
http://www.andima.com.br/clipping/260207/index.html