Está em
construção, em resposta à crise de 2007/09, nova teoria monetária, mais
ambiciosa e mais realista do que os modelos usados pelos BCs
A
"Federal Reserve Bank of St. Louis Review" é uma das mais
importantes revistas que acolhem trabalhos teóricos e empíricos sobre a
economia monetária. Quase centenária, ela acaba de publicar num número
antológico (vol. 92, julho/agosto 2010), cinco artigos muito importantes.
Quatro foram apresentados na 34ª conferência anual do banco, realizada entre
15 e 16 de outubro de 2009. Seu objetivo era focar na teoria e na sua
aceitação empírica nas economias monetárias com fricções financeiras e
analisar as políticas não convencionais propostas para superar as crises
financeiras. Trata-se de leitura obrigatória para todos que se preocupam com
o problema, principalmente para os que até hoje se supõem portadores de uma
"ciência monetária".
A
informação global é que está em construção, em resposta à crise de 2007/09,
uma nova teoria monetária, mais ambiciosa e mais realista do que os modelos
que vêm sendo utilizados por todos os bancos centrais do mundo. Esses,
praticamente, continuam a ignorar o papel da moeda, dos bancos, dos demais
intermediários financeiros, das formas de pagamentos e o comportamento dos
ativos financeiros.
A
tragédia da crise colocou em evidência a pobreza do modelito (novo-keynesiano
ingênuo), de três equações que, com alguns adendos "ad hoc",
orientam a política monetária, inclusive no Brasil. Os novos modelos (e são
mais de um) e o fato de estarem em construção e não terem ainda sido
submetidos à tortura empírica, dão uma justificativa ainda maior para os
argumentos daqueles que: 1) apoiam a autonomia operacional dos bancos
centrais, mas; 2) têm sérias dúvidas sobre se esses são mesmo portadores de
uma "ciência monetária" incontestável.
Não
se trata apenas de incorporar àquele modelo a moeda, o crédito e os
"spreads" dos ativos financeiros (inclusive a taxa cambial), mas de
como retirar dos bancos centrais o incentivo perverso (quando no regime de
metas inflacionárias) de conquistar sua credibilidade superestimando a
ultradiscutível taxa de juro real de "equilíbrio" e subestimando o
misterioso agregado a que se dá o nome pomposo de "produto
potencial".
O próprio
criador da famosa fórmula de Taylor (o economista J.B. Taylor, autor de uma
das equações do tal modelo) fala em introduzir nela a taxa cambial e os
"spreads" dos ativos financeiros, o que tornará sua aplicação mais
complexa.
O
reconhecimento da extrema complexidade que envolve a política monetária
quando ela precisa cuidar de todos esses aspectos da realidade, reintroduziu
"ferramentas" já utilizadas no passado ("quantitative
easing"): empréstimo direto ao sistema financeiro, empréstimo direto ao sistema
não financeiro pelo Tesouro e mudança na remuneração das reservas
compulsórias para forçar a disseminação da "liquidez". Dá, assim,
nova vida à velha suspeita que a política monetária controlada apenas pela
taxa de juros pode funcionar mal. Sem os outros instrumentos (até aqui
execrados pelos fundamentalistas do equilíbrio geral e crentes na
autorregulação do sistema financeiro) ela tem muita dificuldade para superar
a crise.
O gráfico
abaixo, onde se registra a "base monetária" e o
"multiplicador", mostra como é correta a velha ideia que, por si
mesma, a política monetária que usa só a taxa de juros é apenas "capaz
de levar o cavalo à fonte, mas não pode obrigá-lo a beber"...
Incidentalmente,
a leitura dos quatro artigos (mais o outro no mesmo número da revista)
reafirmou a minha simpatia com relação ao último comportamento do Copom, tão
condenado pelos nossos "cientistas" financeiros. Surpreendido pelo
que julgou ser uma "mudança" da situação e intuindo que a
"teoria" em que confia "não é nenhuma Brastemp", revelou
adequada cautela e alguma humildade. Optou pelo axioma de Brainard: quando
você não sabe bem o que está fazendo, faça devagar, por favor.
É claro
que a situação externa pode mudar e elevar os preços das nossas exportações.
Quando e se isso acontecer vamos apenas continuar valorizando o câmbio pela
elevação da taxa de juros, como temos feito nos últimos 15 anos?
Brasil -
Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 24/08/2010