De home broker para bolsa em casa
Em vez do
"fast quote", a
cotação rápida. No lugar do "watchlist",
o simples "minha lista". Adeus ao esnobe "upside
potential", boas-vindas à simples e direta
perspectiva de alta. Em busca da classe C e da meta de atrair 5 milhões de
pessoas físicas para a bolsa em cinco anos, como prevê a BM&FBovespa, as corretoras deixam de macaquear
o jargão dos investidores americanos e começam a falar a língua do investidor
brasileiro: o português.
O
primeiro a superar o complexo de vira-latas que acomete os brasileiros e
aderir à lingua pátria é o home broker,
ou melhor, a "bolsa em casa" da corretora Spinelli. Veterana do mercado,
com mais de 57 anos de existência, a corretora aposentou a plataforma
operacional "Desktop Trader pro" e lançou
um sistema batizado de "Operador +", em que não há expressões em
inglês. "Pode parecer bobagem, mas a maioria dos nossos clientes não
fala inglês", afirma Rodrigo Puga, responsável pelo home broker
da Spinelli. "Para conquistar a classe C, é preciso deixar os termos
complicados de lado".
Com 16
mil clientes, este ano a corretora tem recebido uma média de 2 mil novos
cadastros por mês - mais da metade de pessoas com renda mensal por volta de
R$ 2 mil. Em julho, conta Puga, a Spinelli recebeu
pela primeira vez o cadastro de uma empregada doméstica, que declarou renda
mensal de R$ 600. "Desde janeiro, identificamos essa tendência de gente
com renda menor vindo para a bolsa", afirma o responsável pelo home broker da corretora, que quer dobrar o número de clientes
até o fim de 2011. "A bolsa não é só para economista, administrador ou
engenheiro", acrescenta o executivo.
A
Spinelli não é única a trazer novidades ao investidor. Nas últimas semanas,
pelo menos cinco corretoras anunciaram serviços para popularizar o
investimento em ações e aumentar os volumes no home broker.
Coincidência ou não, as corretoras se renovam justamente após o susto no mês passado
- apelidado de "junho negro" -, quando o volume médio diário no
home broker caiu 21%, para R$ 2 bilhões, voltando
aos níveis de agosto de 2009.
Pela
primeira vez desde abril do ano passado, o número de investidores com ordens
colocadas no sistema ficou abaixo de 200 mil. Pior: o número de pessoas
físicas cadastradas na bolsa permanece empacado na casa dos 550 mil faz
alguns meses.
A crise do euro, que chacoalhou a bolsa, e a Copa do Mundo
explicam o
tombo do volume em junho, afirma Marcos Monteiro, diretor da corretora Socopa, que também lançou este mês uma plataforma
operacional para os investidores do home broker.
"A movimentação realmente não está boa, mas não dá para interromper os
planos de expansão", diz Monteiro, que notou uma leve recuperação no
ritmo de novos cadastros depois do fim da Copa do Mundo.
Segundo
Monteiro, a queda do giro não indica, como pode
parecer à primeira vista, que a pessoa física abandonou a bolsa. Mais do que
saída de recursos, o que houve foi uma interrupção de novas aplicações. Os
recordes de captação da caderneta de poupança mostram, ressalta Monteiro, que
a pessoa física está ressabiada com o mercado acionário e prefere pôr o
"dinheiro novo" em investimentos sem risco. "O investidor
pessoa física ainda é muito influenciado pela tendência, e a crise na Europa
acabou derrubando o índice", afirma. "O dinheiro vai voltar apenas
quando a bolsa mostrar uma tendência mais clara".
Com 12
mil clientes cadastrados, a Socopa prepara o
lançamento de um pacote de serviços à pessoa física para o fim de agosto ou
começo de setembro, revela Monteiro. "Quedas da receita em momentos de
crise fazem parte do negócio, mas não dá para parar de investir".
Apesar do
tombo de junho, ninguém dúvida da expansão do número de investidores na
bolsa. Além da entrada de novos competidores no home broker,
caso das corretoras H. Commcor e Futura, é grande o assédio de grupos estrangeiros. Aportaram
aqui recentemente a coreana Mirae,
a americana Interactive Broker
e colombiana Interbolsa. A portuguesa Caixa Geral
de Depósitos comprou o home broker do Banif e prepara uma reformulação completa do serviço.
Na semana
passada, o Banif lançou uma plataforma operacional
para a pessoa física. Além das ferramentas tradicionais - cotações, livro de
ofertas e análise técnica -, a plataforma, batizada de "Shark", ou tubarão, traz também um sistema de
identificação de oportunidades de operações estruturadas com opções de ações.
"O investidor aponta o negócio em que está interessado e o sistema faz
uma varredura do mercado", diz Bruno di Giorgio, acrescentando que os
clientes também receberão um "pen drive"
- memória portátil - para instalar a plataforma em qualquer computador. A
corretora tem 45 mil clientes cadastrados e pretende fechar o ano com 50 mil.
Já Ativa
Corretora ampliou sua área de pesquisa de empresas, passou a oferecer
aplicações de renda fixa e vem apostando em tecnologia, conta Silvia Werther, diretora comercial. O número de analistas, por
exemplo, cresceu 30% neste ano, com a área passando a contar agora com 12
profissionais. Com a ampliação da equipe, os setores de coberturas, que hoje
somam 22, terão outros 4 adicionados: saúde, educação, alimentos e aviação. A
corretora realiza hoje a cobertura de 70 empresas.
Na área
de tecnologia, a corretora lançou um home broker
com mais ferramentas disponíveis ao investidor. Batizado de Ativa Trade 2.0, o cliente pode na plataforma montar sua
própria página, definir quais ativos quer acompanhar e selecionar suas fontes
de notícias favoritas.
A UM Investimentos é outra que vem se movimentando para
tentar captar e fidelizar clientes. Nesse sentido,
educação tem lugar de destaque, diz Rafael Giovani,
gerente comercial e de plataformas da corretora. O portal da corretora será
reformulado e ganhará uma área destinada a cursos de educação financeira
on-line em outubro.
Segundo o executivo, R$ 1 milhão será investido entre o
segundo semestre deste ano e os primeiros seis meses do ano que vem nesse
projeto. "Não se ganha dinheiro com isso (educação financeira), mas é
uma oportunidade de captação de clientes", afirma ele.
A
corretora trabalha também na estruturação de uma área de análise de empresas.
"Queremos usar os relatórios como uma forma de atrair os aplicadores,
por isso, as análises não serão cobradas", explica Giovani.
Oito pessoas já trabalham na construção de uma base de dados e a expectativa
é de que esse número chegue a 12.
A UM Investimentos ampliou
ainda a mesa de operações em São Paulo, com a expectativa de que a capital
paulista passe a responder por até 90% do faturamento da corretora, fatia que
hoje é de 25%, diz Giovani.
Autor(es): Antonio Perez e Luciana Monteiro, de São Paulo
Valor
Econômico - 27/07/2010