Governo erra no subsídio a investimentos
Mais uma
vez o BC é obrigado a elevar os juros - outro 0,5 ponto
percentual, para 11,75% -, apesar de já praticarmos a mais elevada taxa real
do planeta, estimada em 5,9% anuais, bem à frente do segundo colocado, a
Austrália, com apenas 2%. Tudo devido ao desregramento nos gastos de custeio
praticado nos dois últimos anos do governo Lula, sob o álibi de uma
"política anticíclica" para enfrentar os efeitos internos da crise
mundial iniciada em fins de 2008, mas mantida por muito mais tempo que o
necessário, por erro de avaliação ou oportunismo politico,
já que 2010 era ano eleitoral. A taxa de juros no Brasil é muito alta devido
a desequilíbrios da economia brasileira, como gastos correntes exagerados e
bancos oficiais atuando com juros subsidiados, o que enfraquece as medidas anti-inflação do BC. A elevação da Selic,
a taxa básica de juros - como o Copom executou pela segunda vez consecutiva
na quarta-feira -, termina sendo em doses exageradas, mas necessárias, devido
aos tais desequilíbrios.
Diante deste quadro, as medidas anunciadas para cortar R$50 bilhões do
Orçamento parecem modestas. Afinal, o governo continuará a aumentar os gastos
correntes, em comparação com o ano anterior.
E o pior, o BNDES receberá uma nova injeção de dinheiro público, esta de R$50
bilhões, para liberar um volume ainda maior de empréstimos com juros
subsidiados. Ainda que se vá diminuir o tamanho dos subsídios, este tipo de
operação atrapalha a ação do BC.
A justificativa oficial é que se está cortando gastos correntes e mantendo
investimentos, através do BNDES. Ora, está se diminuindo apenas a velocidade
de expansão dos gastos correntes. E injetando recursos subsidiados com a
outra mão. Além de este tipo de manobra aumentar as dúvidas sobre a política
fiscal, contribui para manter a demanda aquecida, causa do atual surto de
inflação.
O resultado é que o BC continua obrigado a aumentar os juros e, com isso,
instala-se um círculo pernicioso, pois nada atrapalha mais os investimentos
na economia brasileira do que a Selic elevada! A
política anunciada para alavancar os investimentos na verdade conspira contra
eles.
Por trás deste erro crasso, está a visão de que o Estado sabe alocar melhor
os recursos para investimento do que a iniciativa privada. O que a História
tem demonstrado ser uma falácia.
O IBGE confirmou ontem que o PIB cresceu velozmente no ano passado, à taxa de
7,5%, a mais elevada desde 1986 e 2,5 pontos acima da expansão mundial,
colocando o Brasil no terceiro posto do ranking planetário, atrás de China
(10,3%) e Índia (8,6%). Mas isto é passado, paisagem vista pelo espelho
retrovisor. A economia já desacelerava no final do ano, com um crescimento no
quarto trimestre de 5% em relação ao mesmo período de 2009. E precisava mesmo
começar a desaquecer, devido à inflação e às contas externas.
Importa saber dos investimentos, dos quais depende a expansão futura. No ano
passado, a taxa de investimento em relação ao PIB subiu de 16,9% para 18,4%,
mas ainda insuficiente para sustentar um crescimento de longo prazo. O
futuro, portanto, continua incerto. E ficará assim enquanto não for revista
em Brasília a visão anacrônica de que será o Estado o carro-chefe da
expansão.
O Globo -
04/03/2011
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