Os investimentos e o império da lei
Com
estabilidade econômica e política, está na hora de o Brasil também se
destacar pelo cumprimento do Estado de Direito
Notícias
boas e ruins disputaram o noticiário econômico no Brasil na semana passada.
Se por um lado fica cada vez mais claro que a inflação ainda preocupa, também
fica evidente que isso não impede o Brasil de se tornar o queridinho da vez,
para onde vão boa parte dos recursos que estão por
aí à procura de uma boa remuneração.
Somente no primeiro trimestre, o volume de recursos estrangeiros que entrou
no País é maior do que em 2010. A elevação do rating do Brasil pela Fitch
deve intensificar esse fluxo.
Em meio a discussões dignas de uma economia de Primeiro Mundo, uma notícia
mostra o quanto podemos evoluir em termos de segurança jurídica para chegar
lá: a acertada anulação, pelo Superior Tribunal de Justiça, das provas da
Operação Castelo de Areia da Polícia Federal, obtidas após gravações
telefônicas dos executivos da Construtora Camargo Corrêa. Por 3 a 1, os
desembargadores da 6ª Turma do STJ decidiram que a polícia não pode quebrar
sigilos baseados em uma denúncia anônima, sem fundamentação técnica, como
aconteceu na Castelo de Areia.
É um bom sinal para a sociedade que a Justiça mantenha a
rigidez da lei na obtenção das provas nas investigações de supostos delitos
corporativos. Afinal, vivemos num Estado de Direito e provas obtidas
de forma ilegal prestam um desserviço à Justiça. É necessário garantir aos
réus de quaisquer processos o fiel cumprimento das garantias fundamentais da
Constituição.
É assustador para qualquer empresário ou investidor no Brasil que juízes de
primeira instância, promotores, procuradores públicos e policiais ainda
possam desrespeitar a lei em suas decisões e investigações.
A Castelo de Areia, independentemente do mérito,
mostra que esse risco ainda existe e deve ser eliminado. Podem surgir novas
vítimas da má conduta e eventuais criminosos podem ficar impunes graças à
incompetência e à arrogância dos investigadores.
O Brasil precisa dar um passo além nesse campo se quiser de fato sentar-se à
mesa com os grandes países. Quando Jim O’Neill
juntou Brasil, Rússia, Índia e China e disse que os quatro membros do BRIC
eram o futuro, ele se referia apenas ao tamanho das economias.
Nada disse sobre segurança jurídica. Nos anos seguintes, a Rússia tornou-se
cada vez mais um país onde a proteção de um investimento depende das relações
com o presidente. A China, que cresce 10% ao ano há
três décadas, tem na Embraer um bom exemplo de que nem sempre um acordo feito
num ano continua valendo no ano seguinte.
Hoje, o Brasil tem a oportunidade de se destacar ainda mais e tornar-se um
País onde prevalece o império da lei e o respeito aos contratos em todos os
níveis. Depois de conquistar estabilidade econômica e política, pode
conquistar maior estabilidade jurídica. Em vez de um Estado policial, deve-se
buscar um sistema em que as empresas assumam sua responsabilidade e ajam de
acordo com as melhores regras de governança.
Um bom exemplo de conduta é dado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM),
que fiscaliza as empresas de capital aberto. Os julgamentos de
irregularidades são técnicos, bem fundamentados e podem resultar em multas
milionárias e inabilitação dos diretores das empresas.
Suas provas alimentam ainda processos penais subsequentes. Se o tamanho do
mercado brasileiro é um atrativo para empresas estrangeiras e nacionais, a
estabilidade das regras pode ampliar essa atração. Boas empresas gostam de se
instalar onde tem segurança.
Autor(es): Denize Bacoccina
Isto é Dinheiro - 11/04/2011
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