Os fóruns de investidores e os movimentos de manada
Outro dia tive uma conversa interessante com Medina
e Gazel, gestores da M2 Investimentos. Eles
comentavam sobre os fóruns de discussão que reúnem investidores. Eu já havia
visto pequenas amostras do que ocorre nesses fóruns, mas ao ouvir as descrições
dos dois especialistas associei de imediato às observações do meu psicanalista
de cabeceira, Wilfred Bion,
sobre o funcionamento mental de grupos.
Bion fez um trabalho durante e após a Segunda Guerra
Mundial que rendeu um livro instigante: "Experiências com Grupos".
Nele, o psicanalista investigou a mentalidade dos grupos e reuniu suas
principais características em quatro categorias de funcionamento mental. Três
delas, ele chamou "suposições básicas" e a última, "grupo de
trabalho". Para o autor, só o grupo de trabalho seria eficiente e maduro
do ponto de vista psicológico. Já as suposições básicas seriam constituídas por
conteúdos inconscientes, ou seja, emoções e fantasias que permeiam as
interações do grupo. São elas:
A) Dependência: existe algum tipo de autoridade que exerce liderança
sobre os demais que, por sua vez, sentem-se protegidos por esta figura que
decide por eles, mantendo-os em posição subalterna, ou seja, na sua
dependência;
B) Acasalamento: o grupo todo acredita que um messias ou redentor virá para
salvá-los, realizar todos os seus desejos e trazer a bonança para a terra. Num
plano mais profundo da psique, estrutura-se uma fantasia de que este personagem
seria gerado por uma espécie de casal idealizado, que pode estar representado
por participantes do grupo, mesmo que a dupla não se veja nesse papel;
C) Luta e fuga: o grupo se mantém coeso porque supõe que poderá ser
atacado a qualquer momento. Acredita-se num inimigo comum e ameaçador e o grupo
procura se preparar seja para lutar seja para empreender uma fuga.
Agora, eu pergunto: Quem frequenta sempre os fóruns
de discussão de investidores consegue observar manifestações dessa natureza nas
discussões e comportamentos ante os investimentos?
De um lado, já se conhece bem o poder dos boatos nesse contexto. Se alguém
chega com uma dica quente, os outros, no mínimo, ficam com uma pulga atrás da
orelha. Se no passado essa mesma pessoa já deu uma dentro, a força do seu
comentário fica potencializada. Adicione-se ao quadro a questão do tempo.
No mercado financeiro, on-line ininterruptamente ao redor do mundo, a pressão
por decisões rápidas é imensa. E não importa sabermos que decisões tomadas no
impulso correm o risco de dar problema. A aflição de se perder uma possível
oportunidade deixa o sujeito agoniado. Essa é uma das razões
para se buscar dicas, indícios, qualquer coisa que aparente iluminar as
toneladas de incertezas à sua frente, mesmo sem levar em consideração outros
fatores como o prazo de validade da dica, a consistência do indício, a
confiabilidade da fonte etc.
Meus interlocutores, que trabalham diariamente com o mercado, chegam a observar
pequenos movimentos de manada a partir de comentários produzidos nos fóruns,
que podem reunir números expressivos de participantes. Quais os
sentimentos dominantes no grupo nesses momentos? Uma figura de liderança que
diz de forma muito confiante que comprar "X" está certo, mas vender
"Y" é um absurdo, ou mesmo que valida ou não comentários de
terceiros, faz com que os outros acatem suas palavras quase com veneração, sem
titubear.
Espera-se por alguém ou alguma coisa que resolverá todos os problemas do grupo.
Para alguns, há uma expectativa de que as pesquisas na área de psicologia
econômica e finanças comportamentais possam desvendar todos os mistérios da
mente e, portanto, dar o caminho das pedras para só se ganhar nos
investimentos. Pura ilusão. O messias só faz sentido enquanto ele não se
materializa. É esperar por ele que mantém o grupo unido.
Por fim, escolhendo-se um inimigo comum, o grupo sente que está unido numa
batalha que junta todos. O inimigo pode ser a China e
seu câmbio, a perspectiva de maior regulação do mercado, os fudamentalistas
X os grafistas ou mesmo uma empresa que ameaça soçobrar e arrastar a bolsa
junto. E, juntos, o grupo se move na mesma direção. Já viram algo parecido?
Vera Rita de Mello Ferreira é psicanalista, consultora, professora,
representante no Brasil da International Association for Research in Economic Psychology (IAREP) e
autora dos livros "Psicologia Econômica" e "Decisões econômicas
- você já parou para pensar?"
Valor Econômico – 03/02/2010
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/
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