Bancos mudam cobrança de taxa em fundo
Com
a queda dos juros nominais, o impacto da taxa de administração cobrada pelos
bancos nos fundos de investimento aumentou e passou a chamar a atenção de
investidores e do próprio governo. Tornou-se assim praticamente proibido
falar em aumento dessas taxas. Mas alguns gestores encontraram uma forma de
aumentar a remuneração por seu trabalho. Uma delas está na forma de cobrança
pelos serviços.
Pelo
menos dois grandes gestores - Itaú e Credit Suisse Hedging-Griffo - estão
adotando o desconto diário da taxa de administração. O habitual é que o
gestor provisione, ou seja, separe o valor diariamente, para debitá-lo do
fundo mensalmente. Com essa antecipação, o gestor recebe o dinheiro antes e o
investidor perde o rendimento sobre esse valor que teria até o dia do
pagamento, o "floating".
No
caso do Credit Suisse,
são R$ 30 bilhões aplicados em 800 fundos, 100 dos quais abertos, que
passaram a ter essa cobrança este mês. No Itaú, a cobrança, que hoje já
inclui os cerca de R$ 140 bilhões em fundos da casa, atingirá também os do
Unibanco, que somavam em abril do ano passado R$ 68 bilhões. "Nos fundos
do Unibanco, o valor da taxa é provisionado diariamente e o recolhimento é
mensal, mas isso vai passar por uma padronização", diz Osvaldo
Nascimento, diretor de Varejo do Itaú Unibanco. O banco tem um total de R$
211 bilhões sob gestão.
O
impacto dessa mudança é relativamente pequeno para o investidor, mas nada
desprezível para o gestor. Estimando uma taxa de administração média de 1,5%
ao ano, a mudança significaria uma perda para o cliente de R$ 0,50 por mês
para cada R$ 100 mil aplicados, ou R$ 6 por ano. Para R$ 1 milhão, R$ 60,00
anuais, e assim por diante. Mas quando se pegam os bilhões dos gestores, o
valor ganha mais vulto. No caso do CSHG, com R$ 30 bilhões, a mudança vai
representar uma receita adicional de R$ 1,8 milhão por ano.
Já
no Itaú, com a transformação da cobrança nas carteiras do Unibanco, de R$ 69
bilhões, o aumento será de R$ 4,080 milhões,
elevando o ganho sobre o total da carteira de R$ 211 bilhões para R$ 12,660
milhões por ano.
Procurados,
Bradesco, Santander e BNY Mellon informaram que não
estudam mudar a forma de cobrança, com provisão diária e débito mensal.
A
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) explica que não há restrições ao
sistema de cobrança diária da taxa. Mas o sistema deve estar claro no
regulamento do fundo, ressalta Francisco Bastos Santos, superintendente de
relações com investidores institucionais da CVM. "Não é irregular, a
Instrução 409 estabelece que a taxa de administração deve
ser provisionada por dia útil e apropriada de acordo com o regulamento do
fundo", diz. O motivo é que, como a maioria dos fundos tem liquidez
diária, o investidor que sai precisa ter a despesa já deduzida da cota quando
pede o resgate.
O
que é importante, afirma Santos, é que, se houver
mudança na cobrança, ela seja aprovada em assembleia
de cotistas. Foi o que fez o Credit Suisse Hedging-Griffo. Nos últimos
dois meses, a gestora convocou assembleias para
aprovar a mudança. Segundo um executivo da gestora, que pediu para não ser
citado, o débito diário se tornou possível porque o administrador das
carteiras, o Itaú, responsável pelo cálculo das cotas dos fundos da CSHG,
ofereceu um sistema que permitia essa cobrança. "Eles já faziam o débito
diário para suas carteiras, então resolvemos adotar o mesmo sistema."
Para
Santos, da CVM, os débitos pequenos têm um custo adicional em relação ao
mensal, por isso alguns gestores preferem ficar com o sistema antigo. Ele
recomenda ver a taxa de administração de fundos como um preço de mercado.
"Há diferentes casas oferecendo produtos diferentes, e a melhor maneira
para caminhar para melhores níveis de taxas é melhorando a informação para o
investidor", diz.
Entre
as iniciativas, ele cita o informe anual aos cotistas que a CVM pretende
tornar obrigatório na próxima reformulação da Instrução 409, que deve entrar
em audiência pública nos próximos meses. A proposta é a criação de um
relatório que mostre de forma transparente e clara o peso das despesas e da
taxa de administração na rentabilidade do fundo.
O
CSHG justifica a mudança citando a qualidade do trabalho do gestor.
"Temos despesas como publicação de balanço, taxas da CVM, imposto de
renda, despesas com advogados, publicações, tudo isso pago com a taxa de
administração e com a taxa de performance", diz um executivo da gestora.
Segundo ele, o Itaú tem 160 pessoas apenas para fazer a controladoria,
custódia e liquidação financeira dos fundos do CSHG. "E o investidor não
vê as vantagens que conseguimos para o fundo ao negociar com outros
fornecedores", diz. Já a taxa de performance continuará sendo paga duas
vezes por ano.
Segundo
Nascimento, do Itaú, o banco sempre debitou diariamente a taxa de
administração dos fundos. "Por problemas de sistema, outros não fazem,
mas nós sempre debitamos", diz. A medida será estendida agora aos fundos
do Unibanco.
Autor(es): Angelo Pavini,
de São Paulo
Valor Econômico -
11/08/2010