A nova instrução da Comissão de
Valores Mobiliários (CVM) sobre os clubes de ações deve sair até o fim deste
mês e deverá exigir a participação dos clubes em assembleia uma vez por ano,
algo que hoje não ocorre. Segundo Otávio Yazbek,
diretor da CVM, a nova regulamentação está no estágio final de discussões.
"Nos
últimos anos, os clubes viraram produto de prateleira das corretoras, e aí
surgia a dúvida se não estaríamos esvaziando a dimensão pedagógica dessas
carteiras", diz. "Se a corretora tem tudo pronto, administra, faz a
gestão, será que o investidor está mesmo dando o primeiro passo no mercado ou
está passivo?", questiona.
A
proposta da CVM é que os investidores tenham mais participação nos clubes.
"Não vamos matar o produto das corretoras, mas não queremos que o clube
seja o lugar final dos investidores", diz Yazbek.
O objetivo é valorizar a atuação do cotista, o aprendizado mútuo e a
participação.
Uma
regra que incentivará a participação será a exigência de assembleia dos
cotistas dos clubes uma vez por ano, algo que não existe hoje. O investidor
poderia participar delas por meios eletrônicos para evitar aumentar demais os
custos dos clubes. "Mas pode ser um fórum para o investidor
discutir", diz Yazbek.
Outra
mudança deverá ser no número de cotistas, hoje limitado a 150. O diretor não
diz para quanto, mas esse número deve ser reduzido. "É o ponto mais
polêmico da audiência, muita gente criticou, mas vamos criar restrições para
clubes de grande porte", diz. Segundo ele, a intenção é fazer os clubes
migrarem para unidades menores de cotistas, não de capital.
Yazbek afirma que o clube pode até ter a
gestão da corretora, mas o investidor tem de participar de alguma forma.
Haverá também uma melhora das regras de transparência dos clubes e da
contabilização das operações. A ideia é criar formas alternativas de registro
e divulgação de informações que não pesem tanto para os cotistas. Ele lembra
que, como os clubes eram bem menos transparentes que os fundos, muitos
preferiam os clubes. "Queremos evitar isso, a chamada arbitragem
regulatória, que é usar o que tem menos regra pelo custo menor", diz.
Outro
ponto para aumentar a transparência será mudar a figura do representante do
clube perante o administrador, que é a corretora. As reclamações, por
exemplo, nem sempre chegavam à corretora, ou às vezes o representante era
ligado à instituição e nada fazia. A figura não vai acabar, mas vai ter uma
mudança importante, afirma Yazbek.
As
corretoras passarão a ter também papel mais decisivo nas reclamações dos
investidores. "Na hora de responsabilizar alguém, fica um jogo de
empurra entre a corretora e o representante, e isso vai acabar." A CVM
deverá criar restrições para a atuação dos agentes autônomos nos clubes.
Segundo Yazbek, há um claro conflito de interesse,
pois o agente é da corretora. A regulamentação dos clubes deverá antecipar um
pouco o que sairá na regulamentação dos agentes autônomos, prevista para
daqui a dois meses.
O
papel da bolsa no controle e fiscalização dos clubes será reforçado. "A
bolsa hoje é dona do produto, e vamos agora esclarecer seu papel de
reguladora", diz o diretor. Segundo ele, a Bovespa Supervisão de
Mercados vai ter de olhar para os clubes e prestar contas à CVM. Yazbek espera também que entidades autorreguladoras
ajudem nesse processo. A associação das corretoras (Ancord)
está aos poucos assumindo o papel de provedora de infraestrutura para as
corretoras, e uma delas pode ser uma solução para as assembleias dos clubes,
acrescenta.
Para
Yazbek, a queda do número de investidores em clubes
se explica pela migração para o investimento individual. "Hoje, muita
gente opera diretamente e muitas corretoras têm foco no home broker, apesar da concorrência", diz. "Mas esse
movimento mostra que nossa proposta de reduzir o limite de cotistas não está
tão fora de lugar, já que mais de 95% dos clubes têm menos de 50
cotistas", diz. No caso dos clubes específicos, que hoje não têm limites
de investidores, como clubes de empresas, a CVM pretende tomar medidas para o
cotista participar mais. "Não queremos cotista passivo."
Com
relação às aplicações, a CVM vai criar regimes diferenciados para os clubes
que operam com derivativos, a fim de evitar excessiva exposição dos cotistas
a esses riscos. Além disso, será autorizada a entrada de outros ativos nos
clubes, como cotas de fundos de índice, os ETFs.
O
receio do mercado, porém, é que a limitação do número de investidores leve a
uma elitização dos clubes, eliminando os menores aplicadores. O motivo é que
seria preciso reunir valores mais altos para atingir os níveis necessários de
aplicação, além do aumento do custo operacional com assembleias e
divulgações. Recentemente, Doraci Rodrigues Martins
Julia, da Prosper Corretora, teve de reunir três
carteiras pequenas para mantê-las viáveis. "Uma tinha 31 cotistas, outra
20, outra mais 30", lembra ela. Com isso, o
fundo ficou com um patrimônio perto de R$ 1 milhão, o que permite maior ganho
de escala e maior participação no mercado.
Muita
gente que abriu clubes, como estudantes, em 2001, 2002 e 2003 não conseguiu
fazer os aportes que queria e os clubes diminuíram, lembra Doraci. Hoje, ela tem 6 clubes, originários de uns 18 do
passado, variando entre 57 e 73 cotistas. "Se a regulamentação fixar em
50 o máximo, vai ser preciso aumentar o valor dos aportes", observa.
A
regulamentação dos clubes é necessária, mas não pode exagerar nas restrições,
diz Peter Weiss, da SLW. Caso contrário, o clube ficará igual a um fundo e
isso matará a aplicação.
Autor(es): Angelo Pavini | De São Paulo
Valor
Econômico - 21/03/2011