O endividamento cresce com a ilusão do crediário
Segundo
estudo da Tendências Consultoria Integrada, o
comprometimento financeiro das famílias - que era de 26,3% da renda,
incluindo empréstimos e cartões de crédito e excetuando o crédito imobiliário
- está crescendo, como consequência de uma melhora
da renda e da queda do desemprego. Mas qualquer piora da conjuntura econômica
pode se traduzir por um aumento da inadimplência e criar dificuldades para as
empresas que estão financiando esse endividamento, essencialmente os bancos.
O comércio, receoso de que o aumento do endividamento leve a um recuo nas
vendas, pretende ampliar os prazos do financiamento
- em média, hoje, de 515 dias. Um grande hipermercado vende em 18 meses
"sem juros", enquanto um banco proclama que uma prestação a mais
reduz o valor da parcela em 7,2% e neutraliza a alta do juro que nela
incide...
É preciso, porém, encarar a realidade financeira: uma loja que oferece
financiamento de 18 meses "sem juros" tem de financiar essa venda a
prazo, e muitas vezes o fará sem aumentar o preço à vista, para manter a
ilusão do cliente de que está comprando sem juros. Mais que isso, aumentará o
preço dos seus produtos, não apenas em função da taxa de juros atual, mas, em
geral, de uma taxa de juros futura, que ela estimará a partir das avaliações
do mercado ou das suas próprias leituras dos jornais.
O fato é que substituímos o sistema de indexação dos preços, que foi em parte
abolido com o Plano Real e que fixava os preços em função do passado, por um
sistema de indexação que leva em conta um futuro imponderável.
A conclusão é de que seria necessário abolir o sistema de financiamento
"sem juros", estabelecendo juros "civilizados" sobre
todas as vendas à prestação. Esse sistema teria a vantagem de mostrar o
verdadeiro custo das vendas a prazo, mas, especialmente, a de reduzir de modo
muito sensível o preço à vista, deixando o comércio de se transformar em
empresa financeira que lucra através da imposição de juros não devidos nas
vendas que sejam realmente à vista.
Não temos dúvida de que uma medida desta, que incumbiria ao Conselho
Monetário Nacional, exigiria um grande empenho político da parte das
autoridades monetárias, pois daria a impressão de ser uma medida contra o
povo, que quer comprar a prazo. No entanto, cedo se constataria uma queda dos
preços pelo jogo da concorrência e se aboliria um sistema que proporciona
lucros indevidos ao comércio e preço alto à vista para financiar a compra
"sem juro".
O Estado de
S. Paulo - 21/07/201
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